terça-feira, 31 de março de 2009

Corte no orçamento do Ministério da Educação chega a R$ 1,2 bi

30/03/2009 - 17h30
UOL
Da Redação*Em São Paulo


Os cortes no orçamento do MEC (Ministério da Educação) chegam a R$ 1,2 bilhão, de acordo com decreto da Presidência da República, publicado no "Diário Oficial da União", nesta segunda-feira (30). Dos R$ 16.149.279.000 previstos, estão disponíveis R$ 14. 900.200.000. O percentual contingenciado da pasta equivale a 7,7% do orçamento previsto.O ministério que apresentou o maior corte foi o do Turismo, com R$ 21,6 bilhões bloqueados. Segundo números publicados, essa pasta teve 86,39% da verba retida. Dos R$ 2,98 bilhões previstos no orçamento deste ano, a pasta contará com apenas R$ 405,7 milhões.A assessoria de imprensa do MEC, no entanto, afirma que R$ 866 milhões já haviam sido contingenciados em janeiro. E que os outros R$ 384 milhões não vão ser perdidos.De acordo com o MEC, a execução do montante previsto no orçamento está sendo realizada em parceria com o Ministério do Planejamento. O MEC argumenta que os programas que seriam afetados com os cortes, terão as verbas necessárias assim que precisarem executá-las.* Com informações da Agência Brasil

sábado, 28 de março de 2009

Baixa adesão familiar dificulta ensino integral no Rio

Portal UOL Educação, 23/03/2009

Contrariando o senso comum, em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, não é a falta de vaga nem de professor que emperra o ensino integral: é a baixa adesão das famílias. Pesquisa da Secretaria da Educação do município mostrou que apenas 27% dos pais permitem que os filhos fiquem o dia inteiro na escola. Para a maioria, as atividades extracurriculares não trazem benefícios e alguns dizem temer que os filhos fiquem muito cansados.
"Os pais entendem que a escola é algo obrigatório, mas há um sentimento também de que educação demais é um problema", constata o secretário da Educação, Jailson de Souza e Silva, geógrafo com militância em trabalhos sociais em favelas do Rio. Ele acredita que famílias pobres precisam ver a educação do mesmo ponto de vista da classe média, como algo essencial para a liberdade individual e a construção de perspectivas. "Todo pai deseja que o filho seja doutor. Só que desejo é diferente de necessidade. A classe média transformou a escola em necessidade", define. A opinião dos pais foi percebida após a prefeitura inaugurar há quatro anos uma expansão do ensino integral usando espaços comunitários. Chamado de Bairro-Escola, o projeto aproveita espaços de igrejas, clubes, quadras esportivas, associações e sedes de organizações não-governamentais para complementar as salas de aula. Para ir da escola aos locais das atividades, os alunos caminham pelo bairro, que recebe obras com base na necessidade deles. Resultados aparecem: esses alunos tiveram rendimento 25% superior na última Prova Brasil, avaliação nacional feita pelo Ministério da Educação. Apesar disso, pais não deixam os filhos mais tempo na escola porque temem que fiquem cansados. Alguns duvidam que as atividades - pintar, compor, jogar, ver filme - contribuam com a formação. Outros implicam com a caminhada no bairro. E há os que precisam voltar cedo porque "tem que ajudar em casa". As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Por um ensino médio mais adequado ao mundo atual

> Folha Dirigida, 26/03/2009 - Rio de Janeiro RJ

Marcelo Bebiano
Presidente do Conselho Nacional de Educação, a pedagoga Clélia Brandão Alvarenga Craveiro considera necessárias mudanças nas diretrizes curriculares do ensino médio brasileiro para uma real adequação do país à realidade do mundo moderno, aproximando o jovem da escola e preparando-o melhor para o mercado de trabalho. A educadora destaca que nas últimas décadas o mundo passou por grandes transformações, principalmente na área tecnológica, o que torna urgente a adequação das instituições de ensino ao perfil dos estudantes, transformando as escolas em locais mais próximos à realidade dos alunos. "Por isso, o Conselho Nacional de Educação está discutindo o assunto, através de comissões de especialistas, com um diálogo muito próximo com o Ministério da Educação, levando em consideração a opinião da sociedade".

Reitora e professora titular da Universidade Católica de Goiás, Clélia Craveiro adverte que os conteúdos do ensino médio precisam ser atualizados, deixado de lado a educação anterior, que privilegiava a assimilação de datas e nomes. Ela considera fundamental formar um aluno mais crítico, reflexivo e investigador para enfrentar um mercado de trabalho cada vez mais competitivo e dinâmico. Mestre em Educação pela Universidade Federal de Goiás, Clélia Craveiro, não concorda com o modelo de Aprovação Automática que esteve em vigência na rede municipal de ensino do Rio de Janeiro até o ano passado. Ela explica que as pessoas não aprendem da mesma forma e que as escolas devem organizar planos de metas para atingir objetivos pedagógicos adequados e com resultados positivos na formação dos jovens.


Qual a sua avaliação sobre as Diretrizes Curriculares do ensino médio? Estão adequadas ao que se pretende para o segmento?

Clélia Craveiro - A Câmara de Educação Básica do Conselho Nacional de Educação está realizando uma revisão das Diretrizes Curriculares do ensino infantil, fundamental e médio, organizando os princípios orientadores e estabelecendo o que é regional e nacional, sempre sobre a orientação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) e da Constituição Federal. Estas mudanças estão sendo feitas em conjunto com o Ministério da Educação e mediante informações que foram colhidas na sociedade. O MEC faz a apreciação e encaminha para o Conselho Nacional analisar. É um trabalho muito interligado. Um processo que possa responder ao princípio constitucional da aprendizagem como um direito social e com qualidade.

Como garantir a qualidade com um ensino tão deficiente como o brasileiro, com professores desmotivados pela falta de estrutura e de bons salários?
A qualidade se resume na aprendizagem dos alunos. É um direito que crianças, adolescentes e adultos têm. E para isso é preciso oferecer melhor estrutura e salários. No entanto, qualquer mudança bem feita exige uma avaliação completa. No caso do ensino médio, o objetivo é adquirir maior clareza sobre a identidade deste segmento. Saber exatamente qual o seu papel. É óbvio que o ensino médio não exerce apenas o papel de preparação para o ingresso no ensino superior. Este segmento deve possibilitar condições ao cidadão para que ele se desenvolva intelectualmente e tenha condições de transitar neste dinâmico e competitivo mundo do trabalho. A aprendizagem, é hoje, um critério indispensável a qualquer pessoa que deseje alcançar sucesso profissional. As diretrizes do ensino médio são de 1998 e tiveram papel muito importante por estabelecer formas diferentes de se pensar a organização curricular e os princípios deste sistema. Mas, é fundamental avançar sem imaginar uma ruptura total com o que já foi realizado. Num processo histórico é permanente a busca pelo o que foi feito e a atualização desse discurso na prática. É fundamental considerar que o perfil do aluno mudou substancialmente nos últimos 10 anos.

E quais foram as principais mudanças?
Neste intervalo de uma década ocorreu uma verdadeira revolução tecnológica e de costumes. Os jovens de hoje não conheceram o disco de vinil, apenas o CD. Eles não vivenciaram um mundo com o sexo sem camisinha e desconhecem o Ato Institucional nº 5, implementado pelo Regime Militar, na década de 1970. Este distanciamento histórico é perigoso, afasta o jovem do passado. A escola precisa pensar seriamente nisso. Na preservação da memória para que o cidadão se reconheça na sociedade e possua uma identidade global. Não realizar isso com provincianismo, mas com capacidade para transitar nesse mundo, que chamamos transnacional. A escola deve formar jovens para trabalhar no Brasil e no exterior. É necessário que ele possua domínio de Línguas Estrangeiras e da linguagem da internet e seus mecanismos. São conhecimentos estratégicos, que definem a empregabilidade. Estas habilidades ainda são reduzidas dentro da escola e por razões econômicas, em muitas comunidades carentes. Este jovem atual estabelece diálogo, em tempo real, com 100 pessoas ao mesmo tempo pela internet. A forma de se comunicar é completamente diferente. O mundo foi muito alterado. E a escola precisa, obrigatoriamente, se adaptar a essas novas exigências para incluir os jovens nessa discussão. A escola precisa recuperar o lado humano, com mais ações solidárias. Sem dúvida, nós perdemos muito esta dimensão. As crianças estão mais agressivas, sem paciência. Reflexo de um mundo muito dinâmico e controverso. Existe um novo perfil psicológico dos jovens. As distâncias precisam ser reduzidas, com um diálogo mais próximo. Compreendemos os fenômenos, falamos deles, porém não são realizadas muitas ações que aproximem a escola dos jovens. Vivemos um momento difícil, mas muito rico. Existe uma procura pelo aperfeiçoamento das gestões públicas. Isso tudo vai melhorar a educação, um direito social básico e que permite a conquista dos demais. Neste momento, o Conselho Nacional de Educação está discutindo o Plano Nacional de Educação que completará 10 anos em 2010. E até 2011 será necessário aprovar outro Plano Nacional de Educação. É um momento ímpar de uma mobilização nacional para tornar possível uma avaliação das metas estabelecidas nesses 10 anos, perceber o que se alcançou e quais as razões para os insucessos. E os esforços que os conselhos municipais, estaduais e nacional fazem é no sentido de realizar uma integração cada vez maior com a comunidade, pois este movimento pode ser muito mais efetivo se a sociedade civil entender quais são os direitos que ela tem para uma educação de qualidade, não ficando apenas na aprendizagem da leitura e da escrita, buscando uma interpretação ampla do mundo, com a abertura de novos horizontes.

Quais as falhas e os pontos positivos da educação brasileira?
Em termos de metas é inegável que houve um crescimento no acesso, um maior alcance, principalmente no que diz respeito ao ensino fundamental, e na sua ampliação de oito para nove anos. Porém, a permanência e a conclusão ainda são problemas sérios. Registramos altíssimos índices de distorção série/idade.

Qual o nível de distorção série/idade?
Chega a metade dos alunos. São índices muito elevados. É comum que estudantes que possuem idade para cursar o último ano do ensino fundamental ainda estejam nas primeiras séries. Um dado que precisa ser muito bem trabalhado, pois, em geral, o aluno que repete séries ou mesmo o que é conduzido a outras etapas por aprovação automática, apesar de um aproveitamento deficiente, está numa condição desfavorável. A auto-estima desse aluno fica muito baixa, pois sabe que foi promovido sem mérito. Pensar na auto-estima é fundamental. Um fato que gera muito mais compromisso com as pessoas, dá força, criatividade e a pessoa se sente mais respeitada, passando a respeitar o semelhante.

A sra. considera que a aprovação automática representa uma falta de compromisso com uma educação de qualidade?
Discutir avaliação, sem debater o processo de aprendizagem é descambar para o "achismo". É preciso que a escola tenha clareza de seu projeto e das metas que pretende alcançar. E para atingir a meta precisa percorrer um caminho e se organizar para isso. Da forma como a escola vem se organizando sabe que existem muitas falhas e que é fundamental encontrar outras formas. Inclusive, eu gosto muito de uma citação que é imputada ao cientista Albert Einstein, de que "Não é possível corrigir um problema usando a mesma matriz que o criou". Então, se a matriz que nós temos ainda não conseguiu orientar para que a aprendizagem fosse realmente o fio da linha, estivesse presente e permanente em todos os momentos da discussão, é preciso rever essa forma de organização. Minha crítica a aprovação automática é que ela parte do princípio que todos aprenderam da mesma forma. Cada um aprende de um jeito e possui gostos diferentes. Infelizmente, o resultado observado é que nossos jovens saem das escolas sem terem apreendido os conteúdos. Terminam os estudos sem conhecimento de leitura e interpretação. Porém, o foco seria diferente se o aluno fosse aprovado e tivesse que recuperar os conhecimentos deficientes, com um acompanhamento para sanar dúvidas anteriores. O professor da série que ele foi aprovado deveria ser informado sobre as suas deficiências.

O ministro da Educação, Fernando Haddad, defende uma unificação do vestibular das 55 universidades federais para melhorar a seleção e influenciar o ensino médio. Ao invés de unificar o vestibular não seria mais adequado melhorar o ensino médio diretamente?
Podemos executar as duas ações ao mesmo tempo. Mas, em primeiro lugar é fundamental definir qual o perfil de ensino médio que o Brasil deseja. Ele servirá para quê? Para a cidadania? Para o trabalho, convivência em sociedade, ser aprovado no vestibular? A busca por uma formação mais humanística, com aulas de Educação Artística, Música Educação Física? Alunos mais críticos, reflexivos e investigadores. O aluno precisa destas características desde a Educação Básica.

O vestibular é uma seleção ultrapassada? Quais seriam as alternativas de acesso ao ensino superior?
Sim, da forma como é aplicado na maioria das universidades, como uma seleção em que os estudantes precisam decorar fatos e nomes. O desejo do ministro Fernando Haddad é modificar esse perfil de aluno para estabelecer um cidadão mais reflexivo, que questione o que acontece em sua volta. Não aceite passivamente. Acredito que o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) seria uma alternativa ao vestibular tradicional, como uma primeira fase deste vestibular unificado.

O ensino no Brasil está sendo valorizado adequadamente? Existem ações sendo promovidas pelo governo federal?
A Educação brasileira passa por uma fase de avanços. Por exemplo, a aprovação do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação(Fundeb), que é uma superação daquela política focada apenas no ensino médio. Passa a ser feito um financiamento desde a Educação infantil até o ensino médio, inclusive com uma orientação aos alunos da Educação especial. Estes estudantes recebem também o atendimento em outro horário. Ele vai para a escola e convive com outras pessoas. A escola precisa aprender a trabalhar com essas especificidades, com as diferenças, porque a escolarização para ele é muito importante. A escola tem um papel fundamental para o cidadão. A Conferência Nacional da Educação Básica, realizada no ano passado deixou claro o papel fundamental da escola para a sociedade. O Conselho Nacional de Educação tem feito um trabalho de mobilização, buscando uma maior integração, um diálogo mais próximo aos órgãos de Educação para propor ações efetivas em busca de uma qualidade superior. Outra questão muito importante é a discussão das diretrizes de carreira. Até o dia 31 de dezembro todos os estados e municípios precisam ter seus planos de carreiras aprovados. Já houve a aprovação do piso salarial, de R$950, uma luta antiga. Ainda é pouco, mas representa um passo importante, sendo o primeiro e não o último. A discussão não se encerra com este valor, ela se inicia. Este piso não representa um vencimento que permita ao professor a possibilidade dele concentrar seu trabalho e esforços em uma única escola, com recursos para comprar material didático, jornais, revistas, assisitir filmes e peças. Hoje se discute o currículo dos profissionais e importância da relação do currículo com a arte, o conhecimento e a cultura. Se o professor não tem capacidade financeira de proporcionar cultura a sua vida como passará isso em sala de aula. Existe um estudo que aborda este tema. Ele é chamado de "Custo aluno-qualidade", que é a regulamentação do inciso XIX do artigo 4º da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) que diz que é preciso estabelecer um mínimo necessário de material, de infraestrutura didática para que a educação de qualidade aconteça. Queremos saber que custo é esse e o que é feito em relação aos orçamentos. Se estas estimativas já dão conta de responder a essa realidade que surge com força.

Existe uma estimativa inicial deste custo?
Este tema está em discussão. Estamos conhecendo os parâmetros. Porém, sabemos que ele é importantíssimo no ensino fundamental, onde começa a formação do estudante.

Quais as principais atividades desenvolvidas pelo Conselho Nacional de Educação no momento?
Estamos desenvolvendo diversas ações, como o Fórum dos Conselhos Estaduais e com a União Nacional dos Conselhos Municipais. A preocupação é articular os conselhos para que as legislações ou normatizações sejam cada vez mais próximas da realidade. Desta forma, nós reunimos o Conselho Nacional de Educação aos conselhos estaduais e municipais e realizamos um diálogo extremamente importante. Inclusive, esse tema será discutido na Conferência Nacional de Educação, que acontecerá em abril de 2010. Esse ano, no primeiro semestre serão realizadas as conferências municipais, no segundo semestre, as conferências estaduais. Também nesse conjunto de atividades para a Conferência Nacional será realizado o Fórum Nacional de Educação Superior, entre 13 e 15 de abril, em Brasília. Essas discussões também objetivam preparar os especialistas para o Encontro Mundial sobre Educação Superior que acontece esse ano, e ocorre de 10 em 10 anos, em junho desse ano, em Paris.

sexta-feira, 27 de março de 2009

As doenças do magistério

> Folha Dirigida, 24/03/2009 - Rio de Janeiro RJ

Renato Deccache

Sala de aula lotada, barulho dentro e fora da escola, desrespeito dos alunos, acúmulo de turmas em vários colégios, excesso de pressão dos gestores. Tudo isto pode causar bem mais do que frustração e desânimo ao receber o contracheque no final do mês. A falta de infra-estrutura e de condições de trabalho é considerada uma das principais causas doenças que afetam o magistério. São males que atingem o corpo e a mente e retiram, a cada ano, milhares de profissionais das escolas. As pressões do dia-a-dia se refletem em vários sintomas. Depressão, sensação de esgotamento físico e mental e desânimo são indícios da chamada síndrome de burnout, que se caracteriza por um desgaste que afeta o interesse e a motivação em trabalhar. Crises de choro, de medo e pânico podem ser sinais de que o profissional sofre assédio moral.
Os professores também sentem no corpo as conseqüências das más condições de trabalho. Problemas com a voz, alergias, tendinites, distúrbios do sono, distúrbios sexuais, alterações da atenção e da memória, irritabilidade, agressividade, dores na coluna e de cabeça e problemas cardíacos também estão entre os males que afetam muitos dos que ensinam nas escolas. Psicóloga clínica e hospitalar e mestre em Psicologia pela UFRJ, Elaine Juncken diz que o ambiente de trabalho contribui e muito para estas doenças. "Pode ser uma questão relacionada a um ambiente muito competitivo, onde não há tranqüilidade para trabalhar e onde o profissional é desrespeitado com freqüência", disse Elaine.
Um dos riscos é o professor não procurar ajuda médica, por achar que os sintomas estão ligados só a problemas pessoais. Até porque, segundo a psicóloga, as conseqüências vão além da queda na qualidade do trabalho. "O professor pode abandonar a carreira e, em casos extremos, as doenças podem levar o profissional ao suicídio", alertou a doutora. Distúrbios de natureza psíquica podem ocorrer com várias tipos de profissionais. E os professores integram uma das categorias mais suscetíveis, segundo a também psicóloga e professora da PUC-Rio, Sandra Korman. Uma das causas, segundo ela, é a falta de reconhecimento profissional. "Se o professor faz um bom trabalho, ninguém o procura para dizer que foi bem feito. Agora, se o aluno vai mal, a culpa costuma recair sobre quem ensina", comentou a psicóloga.
Sindicatos cobram melhoria nas condições de trabalho - Para representantes dos professores, problemas como baixos salários, turmas lotadas, carência de pessoal para disciplinar o ambiente escolar, alunos mais violentos e falta de infra-estrutura criam a combinação perfeita para derrubar a motivação e levar muitos docentes a hospitais. "A sensação de fracasso é muito grande. Os alunos estão em condições cada vez piores e o culpado é sempre o professor quando, na verdade, a culpa é dos governos que mudam as políticas educacionais e não conseguem alcançar a qualidade", defendeu Wíria Alcantara, uma das diretoras do Sindicato Estadual dos Profissionais de Educação (Sepe).
Quem também reclama das condições de trabalho dos professores é a presidente da União dos Professores Públicos no Estado (Uppes), Teresinha Machado. Segundo ela, falhas de planejamento na construção das escolas comprometem a saúde dos profissionais, como escolha de locais próximos a vias de grande circulação para instalação de colégios. Ela também chama a atenção para um problema específico em Cieps, que têm parte de suas paredes pela metade, de acordo com o projeto original. "O Inmetro fez um estudo e concluiu que o barulho era enorme e que os locais não eram indicados para prática pedagógica", diz a sindicalista, que destaca outras causas de doenças dos professores. "A iluminação das salas e a posição do quadro negro, muitas vezes, não são adequadas. Além disso, o uso do giz traz alergia. Isto sem falar no agravamento da violência na escola e das pressões políticas e ameaças de transferência, que geram estresse, insegurança e pânico para os profissionais", frisou a presidente da Uppes.

Boletim volta com conceito

Estado de Minas, 26/03/2009 - Belo Horizonte MG

Saem as notas de 0 a 10 e entra a avaliação com classificação de A a E, considerando atitudes dos alunos em sala. Especialista da UFMG diz que documento deve retratar a formação do estudante Glória Tupinambás O bom e velho boletim é o personagem principal da escola de resultados que nasce em Belo Horizonte e tira de letra a Escola Plural. Agora em formato padronizado nas 184 unidades da rede de ensino municipal, ele veio para ficar e se transforma, cada dia mais, numa eficiente ferramenta para que pais e professores acompanhem, de perto, o aprendizado de 180 mil alunos. Mas, em vez das tradicionais notas de zero a 10, o boletim passa a informar o rendimento dos estudantes de acordo com conceitos de A a E e traz um grande diferencial: a avaliação da escola em relação às atitudes e valores das crianças e adolescentes em sala de aula. A volta do boletim padrão, que começou a ser testado em maio do ano passado e este ano se tornou oficial, é uma tentativa de acabar com distorções da Escola Plural. Esse modelo pedagógico prevê a divisão do ensino fundamental em três ciclos, de acordo com a idade – 1º (6 a 9 anos), 2º (9 a 12 anos ) e 3º (12 a 15 anos) – e, nos primeiros anos do projeto, implantado em 1995 na capital, a reprovação do aluno só poderia ocorrer no fim dessas etapas. Com isso, a tradição de dar notas e conceitos aos alunos caiu em desuso e muitas unidades de ensino passaram a encaminhar os resultados aos pais apenas no fim do ano letivo. Além disso, cada instituição adotava um formato para registrar o rendimento dos estudantes – notas, conceitos ou até mesmo a classificação de ótimo, bom, regular ou fraco.
Agora, no campo relacionado às disciplinas, aparecem os conceitos de A a E para artes, ciências, educação física, geografia, história, línguas portuguesa e estrangeira e matemática. Ao lado da nota, há uma legenda. O estudante que obtém A atingiu plenamente os objetivos propostos (de 80% a 100%); B, satisfatoriamente (de 60% a 79%); C, parcialmente (de 40% a 59%); D, minimamente (de 20% a 39%) e E não atingiu as metas. Em outra página, está a avaliação dos professores quanto às atitudes dos alunos, como a capacidade de ele se organizar e pôr em ordem seu material escolar, zelar pelos objetos coletivos, seu interesse em aprender e emitir opiniões, o comprometimento com a apresentação de atividades e cumprimento de regras e horários. Além disso, é avaliada sua habilidade de trabalhar em equipe, saber ouvir e respeitar os colegas.
O boletim pode ajudar, segundo a pró-reitora de Extensão da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e coordenadora do primeiro processo avaliativo da Escola Plural, Ângela Dalben, a acabar com mal-entendidos envolvendo o projeto de ensino. “No início, tivemos uma série de problemas com o fim das notas: o aluno achou que não precisava mais estudar, os pais pensaram que a escola não avaliava mais os filhos e o professor acreditou que seus ensinamentos não tinham valor. Foi uma falha de concepção. Mas toda proposta pedagógica precisa de ajustes e é correto que a rede municipal esteja atenta a essas necessidades”, afirma.
Também autora do livro Singular ou plural? Eis a escola em questão, Ângela teme que a volta do boletim signifique o retorno das avaliações classificatórias. “A Escola Plural trouxe a ideia da avaliação formativa, que mede o processo de desenvolvimento do aluno partindo do ponto em que ele estava e analisando onde ele chegou. Portanto, se o boletim deixar de considerar o crescimento do aluno será um retrocesso. O modelo formativo é muito superior ao classificatório e a família precisa saber da situação do estudante. Assim, o boletim aparece como meio de informação”, acrescenta a pesquisadora. RESISTÊNCIA Apesar de registrar o aprendizado do aluno por meio de conceitos, a Escola Municipal Luiz Gatti, na Região do Barreiro, faz questão de detalhar a nota obtida em cada disciplina. “Nesses anos todos de Escola Plural, nunca abandonamos nosso modelo próprio de boletim. O conceito sozinho não é uma boa referência para os pais. Dizer que o aluno é A, ou seja, numa faixa de rendimento de 80% a 100%, é diferente de ele estar com 99 pontos ou com 81. O modelo implantado pela prefeitura é uma forma de mascarar o baixo desempenho do aluno e facilitar sua aprovação a qualquer custo”, diz a coordenadora pedagógica da escola, Dalva Pereira Costa.
ESCOLA PLURAL ORIGINAL - Implantada em 1995 nas escolas municipais de BH, a Escola Plural levantou a bandeira da garantia do direito à educação para todos, por meio da inclusão social. O ensino fundamental foi dividido em ciclos de idade: 1º (6 a 9 anos), 2º (9 a 12 anos ) e 3º (12 a 15 anos). Nos primeiros anos, a reprovação do aluno só poderia ocorrer no fim dessas etapas. A grande inovação do projeto pedagógico foi o trabalho do aluno como ser humano, que tem necessidades não só de aprendizado formal, mas também afetivas, culturais e sociais. A escola passou a ser encarada como espaço de promoção cultural e de cidadania. Mas, para os críticos do projeto, a forma foi privilegiada em detrimento do conteúdo e a educação formal foi prejudicada.


Desafios a serem vencidos

Estado de Minas, 26/03/2009 - Belo Horizonte MG


Muda o modelo da educação de Belo Horizonte, permanecem os desafios. Para vencer a barreira da qualidade do ensino e atingir as metas do Ministério da Educação, a rede municipal aposta em dois projetos: ampliar o atendimento de educação infantil e aumentar o tempo de permanência dos alunos na escola. Em audiência pública ontem, na Câmara Municipal, a Secretaria de Educação de BH garantiu a abertura de 40 mil novas vagas para crianças de até 5 anos e meio até 2012. O projeto Escola Integrada, que amplia a carga horária para nove horas de aula por dia, deve passar de 15 mil para 30 mil jovens beneficiados até o fim do ano. Segundo a secretária de Educação, Macaé Evaristo, a consolidação dos programas é determinante para melhorar os resultados nas avaliações. “Investir na educação infantil é fundamental, pois o acesso da criança à escola cada vez mais cedo se reflete numa melhor trajetória no futuro. E não adianta falar em qualidade, se as crianças não leem e não escrevem”, afirma. BH tem 47 unidades de educação infantil, com capacidade para atender 17 mil alunos. Para reduzir a taxa de reprovação escolar – hoje de 9,9% no ensino fundamental – a PBH promete investir no reforço escolar e na ampliação da jornada de estudos. “O reforço tem de ser contínuo o que é diferente da reprovação. A reprovação não é positiva por marcar a vida do estudante”, alerta a especialista da UFMG, Ângela Dalben.
BOM EXEMPLO

Muito além dos números e das letras, a escola abriu as portas da capoeira, do futebol e das artes para Pedro Enrique Rodrigues, de 8 anos. Aluno do 3º ano da Escola Municipal Monsenhor João Rodrigues de Oliveira, na Região Leste, ele conta com o apoio da mãe, Míriam, para ficar no colégio em tempo integral. “Os monitores ensinam o dever de casa e dão reforço quando os alunos não acompanham a turma. As atividades incentivam o aluno, que fica mais preparado”, diz Míriam

Ensino de metas sepulta Escola Plural

> Estado de Minas, 26/03/2009 - Belo Horizonte MG

Modelo que aboliu a reprovação e o boletim no nível fundamental da rede pública de Belo Horizonte dá lugar a projeto que busca melhores resultados na avaliação do MEC Glória Tupinambás Quase 15 anos depois de surpreender Belo Horizonte com o fim da reprovação e do boletim escolar, a polêmica Escola Plural sai de cena. Em seu lugar entra a escola de resultados, que dá prioridade absoluta ao cumprimento de metas e ações. Todas as mudanças no projeto de ensino da capital têm um objetivo único: tirar a cidade da nota vermelha no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb). Na última avaliação, aplicada pelo Ministério da Educação (MEC) para medir a qualidade do ensino fundamental, BH teve desempenho de 4,4 nos anos iniciais (do 1º ao 4º) e 3,4 na etapa final (do 5º ao 8º) – abaixo da média estipulada de 4,6 e 3,7, respectivamente. O novo modelo (veja quadro na página 22) foi defendido ontem pela secretária municipal de Educação, Macaé Evaristo, durante audiência pública na Câmara, mas é alvo de críticas de professores e especialistas
Os princípios e as diretrizes básicas da Escola Plural já vinham perdendo força nos últimos anos, mas, com a mudança de governo na capital, a nova equipe sepultou de vez o projeto pedagógico, a despeito de técnicos do município medirem as palavras ao tratar do assunto. Segundo Macaé Evaristo, a cidade tem hoje “uma escola pública da Prefeitura de Belo Horizonte”. Além de perder o rótulo, outras duas características marcam o fim do programa e o início de uma nova etapa. Em 2000, as taxas de reprovação e abandono escolar chegavam a apenas 5,8%. Em 2007, o índice de reprovados na rede municipal alcançou 9,9%, enquanto o abandono ficou na casa dos 3,4%. Outro ponto crucial da mudança é a padronização do boletim, que, no ano passado, trouxe de volta resultados da aprendizagem do aluno – medidos por conceitos e não mais por notas – e também detalhes do comportamento em sala de aula. A secretária deixa claro que a época é de transformações. “Precisamos considerar que cada tempo pede uma proposta, uma política pedagógica. Há princípios da Escola Plural que são universais da educação, como o direito de todos ao ensino, uma educação inclusiva e o respeito às diferenças. Isso está expresso na Constituição, na Lei de Diretrizes e Bases (LDB) e permanece. Mas, quanto a outras questões, ligadas à política educacional, estamos em outro momento. A cidade nos pediu isso, é hora de reconhecer o que precisava avançar e estamos trilhando um novo caminho”, diz Macaé.
Ela ainda enfatiza que uma das principais características da nova fase da educação é a busca por bons resultados em avaliações. “Temos metas bem estabelecidas para o ensino fundamental, que, hoje, estão colocadas não apenas para BH, mas nacionalmente. Trabalhamos com avaliações externas, como a Prova Brasil e o Ideb, e exames diagnósticos internos. Nossa prioridade é, objetivamente, construirmos uma educação que incida na melhoria da qualidade e que isso possa ser expresso não só nos processos de inclusão e tratamento das diferenças, mas também por meio de números e resultados do desempenho dos estudantes”, acrescenta. DISTORÇÃO A mudança de rumos mostra sua urgência quando são avaliados casos como o de Paulo e Bruna (nomes fictícios), ambos de 17 anos. Alunos da Escola Municipal Luiz Gatti, na Região do Barreiro, em BH, eles chegaram a pedir a reprovação por não se considerarem aptos a continuar na série seguinte. Mas tudo que conseguiram foi a reprovação do pedido. A reprovação foi autorizada pela coordenação pedagógica do colégio, mas técnicos da secretaria intervieram sob a alegação de que a direção da escola avaliou apenas o mau comportamento dos alunos em sala de aula, e não o nível de aprendizado deles. “Eu não fiz nada e não aprendi nada na 8ª série (do ensino fundamental). Seria melhor ter tomado bomba, pois não estou bem no 1º ano (do nível médio). Minhas maiores dificuldades são em português e matemática”, conta Paulo. Por vergonha do seu desempenho escolar, ele faltou a todas as aulas da primeira semana do ano letivo. “Os colegas sabiam que eu deveria continuar na 8ª série. Preciso aprender melhor. E acho que não vou nem perder tempo de tentar faculdade.”
Ao contrário de Paulo, Bruna sonha em fazer enfermagem. Mas a aluna do 3º ano do ensino médio teme não conseguir vencer o vestibular. “Tenho muito dificuldade em matemática e física e sinto que não entendo bem as aulas. Comecei a ter problemas na 6ª série e tenho certeza de que, se eu tivesse sido reprovada, como eu queria na época, hoje estaria melhor”, diz. Para a professora de português e coordenadora pedagógica do ensino médio, Érika Carvalho Siqueira, os alunos são prejudicados por não acompanhar o ritmo da turma. “Vemos problemas de autoestima dos estudantes, pois eles não acreditam no que fazem e duvidam da própria capacidade”, lamenta. Se a Escola Plural foi fonte de distorções e críticas, professores condenam, no entanto, a lógica imposta pelo novo sistema de avaliações. “A busca pela meta traz de volta a padronização e joga por terra a reflexão crítica sobre a educação voltada para a cidadania e da formação para a vida. Isso era o mais bonito da Escola Plural. Não queremos um aluno que simplesmente resolve problemas de matemática e domina as letras, mas não sabe conviver em sociedade. Se não há boas políticas públicas voltadas para a juventude e o aluno chega fragilizado à sala de aula, não é correto responsabilizar o jovem, a família ou os professores pelo seu fracasso nas avaliações”, defende a diretora do Sindicato Único dos Trabalhadores da Educação Pública Municipal (Sind-Rede), Maria da Consolação Rocha.

Três mil alunos do Rio vão responder a pesquisa do IBGE sobre sua saúde em computadores de mão

Radiografia dos estudantes

O DIA - 24/03/2009
Rio - Alunos de 56 escolas das redes pública e particular começarão a responder, segunda-feira, à primeira pesquisa do IBGE focada nos jovens. O objetivo é identificar quais são os fatores de risco que acometem adolescentes entre 13 e 16 anos e, a partir disso, direcionar as ações do governo federal na área de saúde e bem-estar. O resultado da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (Pense) sai em dezembro.O questionário tem 104 perguntas sobre alimentação, atividade física, consumo de drogas, estrutura familiar e violência. Só alunos do 9º ano do Ensino Fundamental responderão. Para que a resposta seja a mais sincera possível, eles responderão direto no computador de mão e não a entrevistadores. “Há perguntas sobre consumo de drogas, por exemplo, que poderiam deixá-los inibidos. Por isso os computadores serão operados por eles”, explicou a coordenadora da pesquisa, Maria Isabel Mendes. Em todo o País, o IBGE ouvirá 70 mil alunos, que também serão medidos e pesados. Desses, 3 mil são do Rio. Para os diretores dos colégios, o questionário será sobre a infraestrutura das unidades.Ontem, alunos da Escola Municipal República do Peru, no Méier, tiveram uma prévia. Todos quiseram participar. “As perguntas são fáceis e falam de assuntos a que estamos acostumados. Responder sozinho também dá mais segurança”, contou Beatriz Barbosa, 14, que garantiu não ter ficado encabulada. A mãe dela, Marisa Gomes, aprovou: “Os jovens já falam sobre tudo com a maior naturalidade.”